Originalmente publicado em Valor Econômico

Por Sérgio Tauhata | De São Paulo Kelly, da EqSeed: “Segmento pode manter o crescimento de três dígitos”

‘Equity crowdfunding’ alcança pequenos aplicadores

Quem nunca sonhou em dirigir o De Lorean que aciona a máquina do tempo criada pelo Dr. Emmet “Doc” Brown no filme “De Volta para o Futuro”? O que você faria se conseguisse viajar para outras eras? Com certeza, muita gente pensou que, se pudesse voltar ao passado, investiria em empresas como Google e Facebook quando ainda eram apenas negócios criados nos dormitórios das faculdades.

Na vida real, não podemos voltar no tempo. Mas não significa que não exista possibilidade de investir no próximo grande negócio de tecnologia. A inovação deu um jeito de qualquer um apostar em negócios com alto potencial de crescimento, inclusive no próximo unicórnio, como são conhecidas as iniciantes que atingem valor de mercado bilionário. Esse é o papel das plataformas de “equity crowdfunding” — o investimento coletivo em participações de startups.

Além de permitir que investidores de qualquer tamanho possam adquirir uma fatia de uma empresa iniciante, o financiamento pulverizado, ao mesmo tempo, preenche uma lacuna do mercado de capitais tradicional que oferece poucas opções para obtenção de recursos às startups na fase inicial. As plataformas se posicionam entre o investimento-anjo, em geral o primeiro que um empreendedor recebe para começar o negócio, e a chamada “série A” do venture capital, ou seja, o primeiro segmento de negociação já dentro do universo dos fundos de capital de risco.

Enquanto os “anjos” aportam entre R$ 50 mil e R$ 500 mil, o equity crowdfunding permite às startups obter até R$ 5 milhões por rodada. O nível de valores da série A, por sua vez, já ronda a dezena de milhões de reais. Segundo dados da Associação Latinoamericana de Private Equity e Venture Capital (Lavca), a média por transação de venture capital no Brasil alcança R$ 16 milhões.

Os valores das captações podem parecer elevados, mas aí é que entra a força do financiamento coletivo. As aplicações iniciais para o usuário dependem da estratégia de cada plataforma, mas no Brasil começam em R$ 500 — é só fazer a conta: se mil pessoas investissem o mínimo, a startup captaria R$ 500 mil.

Hoje o mercado de equity crowdfunding no Brasil está concentrado em três plataformas. O investimento mínimo varia para cada uma. Na EqSeed, o montante inicial é o mais alto entre as três, de R$ 5 mil. A Kria estabeleceu valor a partir de R$ 1 mil. Na StartMeUp, começa em R$ 500.

As ofertas de equity crowdfunding são reguladas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) desde julho de 2017. As normas disciplinam tanto as emissões das startups quanto o investimento pelas pessoas físicas.

O sistema permite que startups com faturamento de até R$ 10 milhões por ano possam captar um máximo de R$ 5 milhões por rodada. Para realizar uma nova operação com mesmo limite é preciso esperar 120 dias.

Qualquer pessoa pode aplicar por meio das plataformas. Mas há um limite anual de R$ 10 mil por CPF. Os investidores qualificados ou que tenham renda bruta anual ou investimentos financeiros superiores a R$ 100 mil ganham um “chorinho” a mais: nos dois casos, podem aportar até 10% adicionais calculados sobre o que for maior entre os rendimentos e as aplicações.

O investimento por meio das plataformas também traz outra vantagem além da força coletiva. É de interesse da categoria que as empresas investidas tenham sucesso e que os modelos de negócios sejam sustentáveis, ou seja, consigam andar e se desenvolver com as próprias pernas. Por isso, EqSeed, Kria e StartMeUp fazem seleções criteriosas de quais empreendimentos vão poder captar pelas plataformas.

“Nós fazemos uma ‘due dilligence’ [checagem da empresa] e avaliamos os modelos inovadores de negócios com maior potencial”, resume o sócio e CEO da EqSeed, Greg Kelly. Essa espécie de selo de qualidade é uma exigência da regulação que responsabiliza quem faz a intermediação no equity crowdfunding por obrigar os emissores a prestar as informações adequadas sobre o negócio e os riscos envolvidos. E os riscos são elevados, porque, na ponta extrema, a pessoa pode perder todo o valor investido, se a startup fechar as portas.

As normas da CVM exigem que as plataformas “divulguem, com destaque, eventuais conflitos de interesse; suspendam a oferta, caso constatem qualquer fato ou irregularidade que venha a justificar a suspensão ou cancelamento; mantenham fórum eletrônico de discussão para cada oferta de acesso restrito aos investidores destinatários”.

Os resultados mostram que as regras fizeram muito bem à categoria. Além do mercado ter crescido cinco vezes em volume captado, a média de valorização dos investimentos iniciais, com base em dados da EqSeed, alcança 99,4%. O levantamento da plataforma leva em conta o aumento das avaliações de valor das empresas que já conseguiram fazer ao menos uma segunda rodada de captação de recursos.

Mas isso não significa que o investidor já poderia embolsar o lucro. Kelly ressalta que o “valuation” obtido pelas startups nas segundas rodadas de captações é apenas uma referência da valorização e não um retorno em si. “É um investimento de longo prazo e não tem liquidez até a saída.”

A chamada saída do investimento ocorre, em geral, quando um fundo de investimento ou uma companhia adquire uma participação relevante na startup. Nessas operações, é que quem aportou recursos no início do negócio por meio do equity crowdfunding poderia vender sua fatia e embolsar o lucro.

Porém, a estimativa é de um prazo de cinco a sete anos até o negócio ganhar atratividade para o capital de risco. “Nesse intervalo, a startup, provavelmente, fará várias rodadas de captações por meio das plataformas, até ter tamanho compatível com o interesse de um venture capital”, diz o sócio da EqSeed.

Os empreendimentos que já receberam recursos por meio do equity crowdfunding no Brasil ainda estão no início de sua jornada. As startups começaram a captar pelo sistema a partir de 2016. A maioria, porém, estreou nas plataformas em 2018, após a regulamentação da CVM.

Por isso, há poucas empresas que já fizeram uma segunda rodada de captação. De acordo com Kelly, na EqSeed, apenas seis startups já realizaram o chamado “follow-on”, termo usado no mercado para indicar novas emissões após a oferta inicial.

O período entre a primeira e a segunda rodadas varia conforme o modelo de negócios e a velocidade de crescimento. Na EqSeed, o menor intervalo para uma nova operação foi de quatro meses e o maior, de dois anos e meio.

Dados da CVM mostram que o mercado cresceu 451% em dois anos. Em 2016, as plataformas captaram pouco mais de R$ 10 milhões. Em 2017, o montante alcançou R$ 18 milhões. No ano passado, a movimentação subiu para R$ 46 milhões, aponta a autarquia.

Segundo a CVM, entre 2016 e 2018, o número de plataformas saiu de quatro para 14. Já a quantidade de investidores saltou de 2.467 para 8.966 no período.

Kelly prevê que a categoria pode manter o crescimento de três dígitos pelos próximos anos. “A base de comparação ainda é pequena, se levarmos em conta o potencial”, avalia.