Artigo originalmente publicado na Você S/A

Como investir em Startups

“O negócio é de longo prazo e arriscado, mas os retornos podem ser altos” – Guilherme Soares Dias

Quem investiu 1 000 dólares quando a Ama­zon vendeu suas primeiras ações, nos Estados Unidos, ganhou meio milhão 20 anos depois. O lucro, segundo a Business Insider, foi de 500000%. Exemplos como esse elevaram o patamar de novas empresas, sobretudo as de tecnologia: todo mundo quer tirar uma lasquinha do sucesso delas. Do empresário Jorge Paulo Lemann, dono da cervejaria Ambev, ao apresentador Luciano Huck, um número cada vez maior de brasilei­ros busca iniciativas inovadoras que possam resultar em dividendos fora da curva para aplicar seu dinheiro. A boa notícia é que não precisa ter milhões de reais, como os dois figurões citados acima, para entrar nesse jogo. Isso porque uma nova modalidade, o equity crowdfunding (“investimento coletivo”), vem po­pularizando o acesso a companhias novatas com futuro promissor. Nesse esquema, fundadores fazem ofertas públicas de suas startups, numa espécie de “mini-IPO”. Tudo acontece de maneira online, em pla­taformas especializadas.

como investir em startups

Confiança

Embora ocorresse de maneira informal, o equity crowdfunding foi regulamentado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em julho de 2017. De lá para cá, houve um boom de interesse na modalidade.

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Onde aplicar

Conheça as bolsas de startups que já operam no Brasil.

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EqSeed:

Fundada em 2015, conecta investidores a empresas em expansão. Efetua rodadas de investimento de até 5 milhões de reais. É possível aplicar a partir de 5000 reais. Assim como as outras, por enquanto permite apenas a compra de ações. “nós filtramos as empresas por qualidade, modelo de negócios e validação de dados jurídicos”, diz Greg Kelly, sócio-fundador. A plataforma analisou 2500 startups. Em três anos, apenas 23 foram aprovadas para ter a rodada de investimentos.

eqseed.com

Ilusão de óptica

Embora as plataformas de equity crowdfunding sejam apelidadas de “bolsa de startups”, é essencial ter em mente que a dinâmica não é a mesma do mercado de ações tradicional. Nesses sites, há em média cinco ofertas de startups por mês e o investidor precisa ficar de olho para não perder a oportunidade. O valor mínimo para aporte também é diferente: em geral, fica em torno 3 000 reais. Outra coisa: uma vez adquirido, o papel não pode ser vendido. Ou seja, não dá para fazer o famoso trade, comprando ações na baixa para vender na alta.

Portanto, a liquidez desse tipo de aplicação é bem menor do que a da maioria dos ativos disponíveis. Ao investir numa startup, você passa a integrar a participação societária. Se ela vingar ou for comprada por alguns milhões, você fatura. Se falir, você perde o valor aplicado, já que a modalidade não tem proteção do Fundo Garantidor de Crédito. Mesmo assim, especialistas afirmam que vale a pena se aventurar, desde que com cautela. Com a queda da taxa Selic, aplicações como poupança, fundos DI e títulos do Tesouro Selic, perderam atratividade. Para obter retornos mais interessantes, é preciso ser um pouco mais arrojado.

Giuliano Moretti

O empresário Giuliano Nacarato Moretti, de 41 anos, fez seu primeiro investimento em startup dois anos atrás, no auge da crise, para tentar aumentar a rentabilidade no longo prazo. Atualmente, ele man­tém dinheiro em nove startups, de setores como tecnologia, gastronomia e marketing. “Ainda não obtive lucro, porque os retornos nesse tipo de mercado são de longo prazo. Mas tenho certeza de que ao menos uma vai decolar. Minha expectativa é ganhar de cinco a 30 vezes o dinheiro que apliquei”, afirma.

Entre os pontos positivos da modalidade, Giuliano cita o fato de que negócios menores permitem maior aproximação. As melhores plataformas de equity crowdfunding disponibilizam inclusive uma aba em que é possível contatar diretamente os executivos da companhia na qual investiu. “A possibilidade de opinar sobre os rumos do negócio é mais palpável do que na bolsa de valores, com empresas de grande porte”, diz ele, que possui 15% do capital aplicado em star­tups — o restante está em renda fixa, multimercados e previdência.

Estratégia certeira

O que fazer para minimizar os riscos da modalidade:

Tenha uma carteira variada

Aplique seus recursos em empresas diferentes, de setores diversos. Segundo especialistas, os segmentos mais propícios são os de tecnologia, agronegócio, logística e finanças.

Seja Conservador

O ideal é colocar de 5% a 10% do valor total destinado a investimentos. Lembre-se: essa é uma modalidade. De alto risco e deve ocupar uma parcela mínima da carteira.

Avalie o prazo de retorno

Nessa categoria, o tempo médio para começar a lucrar é de no mínimo cinco anos. Portanto, não conte com esse dinheiro para imprevistos ou qualquer outra necessidade financeira de curto prazo.

Busque informação

Procure dados da companhia, ouça a opinião de investidores mais experientes e especialistas do ecossistema. Avalie o tempo de maturação do negócio, a equipe que o conduz e as fontes de recursos. O equity crowdfunding é diferente de uma vaquinha. Em vez de brindes como recompensa, você também vira dono do negócio.

Cuidado redobrado

Cautela, nesse tipo de aplicação, faz bem. Antes de aplicar qualquer montante numa startup, por mais que você acredite no potencial, é preciso estudar o contexto de mercado, projetar o crescimento do setor em que ela está inserida, avaliar números e analisar se a equipe que a comanda é preparada para tocar o projeto. Também ajuda frequentar o ecossistema de inovação, pegar atalho com quem já aplicou antes e fazer cursos como o de va­luation (que ensina a dimensionar o valor de uma empresa).

Como muitas startups estão em fase pré-operacional e tudo que possuem são métricas, Caio do Val, operador da bolsa, de 34 anos, toma cuidado — mesmo com experiência em finanças. “É preciso fazer o dever de casa e avaliar se o risco vale a pena”, diz. Sem relatórios nem informações na imprensa sobre as companhias, como acontece com os ativos da bolsa de valores tradicional, Caio aposta em startups dos setores em que acredita que haverá crescimento. “Vejo áreas promissoras, como logística e agronegócio, e invisto. Também me certifico se há empresas de sucesso fazendo coisas parecidas lá fora”, afirma. Atualmente, tem dinheiro em três startups nacionais e espera receber de volta até dez vezes o valor desembolsado nelas. Sua meta é fazer, até o fim do ano, mais dez aplicações moderadas em startups. “Se uma der certo, já vai pagar o que investi. Se três vingarem, ganharei dinheiro.”

Apesar da rentabilidade satisfatória (as taxas de retorno ficam na casa de 30%), o risco de perder tudo é real. Para exemplificar isso, Mi­chael Viriato, professor de finanças do Insper, pontua que a mortalidade das startups é alarmante: quatro em cada cinco fecham as portas antes mesmo de completar o primeiro ano de vida. E não é só isso. Mesmo bem-sucedidas, dependendo do estágio em que estiverem seus negócios, ainda terão de recorrer ao mercado algumas vezes para captar recursos, via investidores-anjo, fundos e aceleradoras. Isso significa que o pagamento de dividendos pode levar de cinco a dez anos. Por isso, a dica é ter baixa exposição à modalidade, não ultrapassando 5% do montante que dispõe para aplicar — o tíquete médio de investidores de startups no Brasil é de 10 000 a 15 000 reais. “Achar que vai triplicar o patrimônio porque ouviu uma história bonita é arriscado. Investir em startup é como cassino”, diz o professor. Ou seja, não dá para apostar todas as fichas de uma vez.

Parece, mas não é

As diferenças entre investir na bolsa tradicional e nas de startups:

Retorno incerto

Apesar das plataformas que oferecem investimentos em startups serem uma espécie de peneira (expondo negócios com maior potencial e maturidade), não há como medir o desempenho por meio de um indicador comum. Na bolsa de valores, por exemplo, há o índice Ibovespa para balizar.

Liquidez

Nas bolsas de startups, as empresas têm alcance e lucros menores, por isso os recursos são mais limitados e a distribuição dos lucros pode ser maior, mas só ocorre no longo prazo.

Dividendos

Empresas da bolsa, sobretudo blue chips, podem render logo. O mesmo não acontece com as startups, em que os pagamentos demoram para ocorrer, já que os primeiros lucros são reinvestidos no próprio negócio.

Transparência

As startups até prometem relatórios de acompanhamento do negócio, mas não há regras rígidas e específicas de governança corporativa, transparência e prestação de contas como as da bolsa. Nenhuma startup que abre o capital é obrigada ater uma aba para investidores em seu site, tampouco a fazer reportes trimestrais estruturados.

Dinâmica diferente

O famoso trade – venda e compra de ações – não acontece. O melhor momento para o investidor é a compra da startup por outra empresa. Ou quando ela começa, de fato, a ganhar dinheiro com o negócio.

Escolha da plataforma

Optar por plataformas aprovadas pela CVM aumenta a segurança do negócio. Observe se o ambiente digital é amigável e se as respostas são rápidas e eficazes.

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