Artigo originalmente publicado no Valor Econômico

A captação via “crowdfunding” – modalidade de financiamento coletivo que permite investir em participações nas startups — dis­parou depois que a modalidade ganhou uma regra específica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em 2017. No ano passa­do, o volume de investimentos alcançou R$ 46 milhões, um au­mento de 451% na comparação com 2016, quando a norma ain­da não havia sido editada, e de 110% em relação a 2017.

E enquanto as plataformas res­ponsáveis usadas para captação seguem confiantes no crescimento das ofertas em 2019, o re­gulador estuda permitir nego­ciações no mercado secundário. O crowdfunding de investimen­to é uma alternativa para star­tups levantarem recursos junto a pessoas físicas. Editada em julho de 2017, a instrução 588 condi­cionou a realização desse tipo de oferta a plataformas autorizadas pela autarquia. Hoje já são 14 re­gistradas e outras quatro estão na fila à espera do sinal para co­meçar a operar. O número de pe­didos surpreendeu até mesmo a CVM — em 2016 eram apenas quatro no mercado.

“Há interesse tanto da parte dos investidores quanto dos pró­prios empreendedores. O crowd­funding é uma ferramenta para buscar estes recursos alternativa­mente ao sistema financeiro ban­cário clássico”, disse ao Valor o su­perintendente de desenvolvimen­to de mercado da CVM, Antonio Berwanger. Apesar do crescimen­to, até o momento nenhuma ofer­ta atingiu o teto permitido, de R$ 5 milhões. Em 2016, o valor mé­dio foi de R$ 347 mil, e passou pa­ra R$ 583 mil no ano seguinte. Em 2018, o montante por emissão foi de R$ 1 milhão, em média.

A EqSeed, uma das primeiras plataformas estabelecidas no país, planeja fazer unia oferta que al­cance o limite estabelecido pela norma em 2019. “Esperamos um crescimento do número e também do tamanho das rodadas. Essa mo­dalidade de captação de recursos está cada vez mais relevante para empresas maiores”, afirmou o só­cio-fundador, Brian Begnoche. No ano passado, a EqSeed levantou R$ 512,8 milhões em emissões de 11 empresas, número que quadrupli­cou na comparação com 2017. A plataforma realizou as quatro maiores rodadas individuais já re­gistradas. Uma delas foi a da pró­pria EgSeed, de R$ 2,5 milhões.

Inicialmente, a norma foi es­truturada para privilegiar em­presas com mais dificuldades de captação, e por isso definiu-se que é voltada para empresas com receita anual de até R$ 10 milhões. Mas à medida que o seg­mento crescer, isso pode mudar.

“É questão de tempo para que alguns dos limites, ou todos eles, sejam repensados. Ainda temos uma folga na questão do volu­me máximo de captação. Mas te­mos recebido mais pleitos para flexibilizar o limite de faturamento das empresas”, afirmou Benvanger, da CVM.

O número de investidores que participaram dessas emissões sal­tou de 1.099 em 2016 para 8.966 no ano passado. E muitos são qualificados, ainda que o valor médio por investidor venha cain­do — o montante caiu de R$ 5.7591,38 para R$ 5.131,20, na mesma base de comparação. Esse é o perfil dos investidores atraí­dos pela Urbe.Me, plataforma de crowdfunding voltada para o se­tor imobiliário. A empresa foi responsável por mais de R$ 20 mi­lhões captados no ano passado, cerca de 50% do mercado. Para 2019, o objetivo é pelo menos do­brar esse resultado, segundo o só­cio-fundador da plataforma, Lu­cas Obino. “Estamos fazendo ofertas semanais, de até três roda­das por empreendimento”, disse.

A CVM tem discutido com as plataformas a possibilidade de permitir um mercado secundá­rio, ainda de forma experimental — o regulador acompanha e de­pendendo dos resultados pode ou não prever esse tipo de nego­ciação na norma. “Não seria um mercado secundário “full time”, mas de alguma maneira os de­tentores de títulos de crowdfun­ding poderiam trocá-los entre eles”, disse o superintendente.

Para o presidente da Associa­ção Brasileira de Crowdfunding de Investimento (Crowdlnvest), Adolfo Melito, a medida pode au­mentar a confiança dos investido­res. “Se não há um horizonte de saída, o investidor fica com um pé atrás”, disse, lembrando que em todo o mundo a modalidade mo­vimenta cerca de US$ 200 bilhões.