Originalmente publicada no Valor Econômico 

Antes restritas aos investidores anjos ou institucionais (como fundos de venture capital), os investimentos em startups se popularizam entre as pessoas físicas desde 2017, com a publicação da instrução CVM 588. A norma regulamentou o crowdfunding de investimento, modalidade que permite que  empresas com receita bruta anual de até R$ 10 milhões façam ofertas públicas para captar até R$ 5 milhões por rodada. De quebra, a regulação  adicionou uma alternativa de diversificação para o investidor em busca de retornos atrativos e a possibilidade de adquirir participação em startup no futuro.

O investimento coletivo, que já ocorria antes da publicação da regulamentação, escalou desde então, conforme a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Os investimentos somaram R$ 46 milhões em 2018, alta de 110% sobre 2017 – os dados também incluem as captações de crowdfunding imobiliário, modalidade de dívida que responde por uma parte pequena desse montante. As ofertas públicas, que ficam até 180 dias no ar, ocorrem em plataformas de investimento online – eram 24 registradas até meados de agosto.

“As plataformas permitiram à pessoa física incluir uma startup em sua carteira de investimento, comprando participação com a mesma facilidade com que investe em bolsa. Com a Selic em baixa, esse mercado atrai cada vez mais investidores”, diz Brian Begnoche, sócio-fundador da EqSeed, plataforma aberta em 2016 e que já captou R$ 23,4 milhões em 26 rodadas.

O número de investidores do crowdfunding de investimento cresceu oito vezes de 2016 a 2018, conforme a CVM, passando de 1.099 para 8.966. Os perfis são os mais variados. Há desde os que enxergam na modalidade uma oportunidade de diversificar o portfólio de investimentos até os que investem movidos por um propósito – são os entusiastas das startups em geral, de um segmento em particular ou de uma empresa em específico.

A CVM dividiu os investidores em três faixas. O investidor de varejo pode alocar até R$ 10 mil por ano na modalidade. O investidor com renda bruta anual ou investimento financeiro (o que for maior) entre R$ 100 mil e R$ 1 milhão pode alocar até 10% do patrimônio e o qualificado, com mais de R$ 1 milhão para investir, não tem limites. O valor médio por investidor foi de R$ 5.131,20 mil em 2018, segundo a autarquia.

“A maior parte dos investidores faz aportes menores do que R$ 10 mil. Mas aqueles que aportam entre R$ 50 mil e R$ 100 mil são fundamentais para ajudar no fechamento de uma rodada”, diz Michel Porcino, CEO do Kria, plataforma fundada em 2014 e que já captou R$ 33,3 milhões. As plataformas estabelecem investimentos mínimos que podem variar de R$ 1 mil e R$ 5 mil por rodada a depender do tamanho da oferta.

O aporte garante ao investidor um título conversível de dívida (mútuo conversível) que, em um prazo médio de cinco anos, poderá ser convertido em participação societária (equity) quando a empresa se transformar em sociedade anônima. No fundo, a ideia não é se tornar sócio e receber dividendos. A torcida é para que a empresa escale, se valorize e remunere o investidor (em múltiplos pré-estabelecidos do valor investido) quando for adquirida por um concorrente ou receber o aporte de um fundo – que por tabela adquire a participação desses investidores.

Startups são ativos com risco elevado. Os riscos do equity crowdfunding são de a empresa não crescer, o produto ou serviço ter baixa aderência entre os consumidores ou de ser superada pela concorrência. “As pessoas estão à procura de novas formas de investir e as startups são possíveis investimentos. Mas o investimento em startup é um dos mais arriscados que existem”, alerta Newton Campos, coordenador do Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP).

Para minimizar or riscos, as próprias plataformas indicam diluir os investimentos em mais de uma startup. No caso do crowdfunding de investimento, o risco é limitado à perda do valor investido. Isso porque o investidor não entra de imediato no contrato social de uma empresa limitada, uma forma de proteção contra eventuais passivos trabalhistas ou tributários que a empresa venha a enfrentar.