Startups captam acionistas na internet

Por João Luiz Rosa | Novembro de 2016

Leia na íntegra no Valor Econômico

Como muitos empreendedores em busca de dinheiro para investir, Giulliano Siviero e seus sócios na Kokar, uma empresa de automação residencial, decidiram bater à porta de investidores-anjo no ano passado. Não deu muito certo. “Procuramos uma dezena deles, mas não chegamos a nenhum acordo”, conta o empresário. As conversas foram positivas, mas as propostas se revelaram insatisfatórias. Algumas nem eram 100% em capital. “Chegaram a nos oferecer o uso de maquinário como parte [do aporte] “, diz Siviero.

A situação mudou quando os sócios tentaram uma alternativa diferente: a internet. A companhia aderiu ao equity crowdfunding, uma modalidade de financiamento coletivo em que o investidor adquire uma participação societária no negócio. Ainda pouco explorado no Brasil, o modelo proporcionou à Kokar um aporte de R$ 300 mil, em troca da venda de 10% do negócio. O dinheiro está sendo empregado em marketing, vendas e na produção dos dispositivos de automação.

O episódio da Kokar, fundada em 2014, ilustra bem as características do equity crowdfunding: empresas nascentes com produtos prontos para vender, pequenos volumes de dinheiro e muitos investidores. No caso, foram 38, de 8 Estados, que investiram em média R$ 8 mil. O maior aporte foi de R$ 50 mil.

“No Reino Unido, o movimento em torno do equity crowdfunding foi de zero ao equivalente a R$ 1 bilhão em quatro anos, entre 2010 e 2015″, diz o inglês Greg Kelly, sócio da EqSeed, cujo papel é interligar os dois lados. A previsão é que no Brasil os investimentos totais sob esse formato somem R$ 20 milhões no decorrer de 2017, o que mostra o potencial de crescimento do formato no país.

Kelly, um matemático que passou seis anos no Lloyds Bank, em Londres, onde trabalhou na área de mercado de capitais, se associou ao economista americano Brian Begnoche para fundar a EqSeed. Eles se conheceram jogando rúgbi na praia de Ipanema.

A decisão de criar uma empresa brasileira de equity crowdfunding veio depois de a dupla perceber uma lacuna no modelo de financiamento de companhias novatas no país. De um lado, os fundos de participação reclamam que não recebem projetos maduros o suficiente para investir. De outro, as startups dizem que não conseguem chegar ao grau de maturidade desejado exatamente porque não recebem dinheiro nas fases iniciais.

Há uma grande diferença entre falta de capital e falta de acesso ao capital. No Brasil, não faltam recursos”, diz Begnoche.

Esse desencontro é fatal para o desenvolvimento da inovação. Em mercados maduros, a lacuna costuma ser preenchida por investidores-anjo, em geral pessoas físicas com dinheiro e interesse em participar de companhias novatas. O problema, afirma Begnoche, é que esse movimento ainda é incipiente no país. Pesquisa da Anjos do Brasil, uma organização sem fins lucrativos, mostra que hoje existem 7.260 investidores-anjo no mercado brasileiro. Nos próximos dois anos, eles pretendem investir R$ 234 mil cada, o que totaliza R$ 1,7 bilhão. Em 2014, havia menos “anjos” – 6,3 mil, mas o investimento projetado era muito maior, por volta de R$ 3 bilhões.

Para o investidor, uma das vantagens do equity crowdfunding é poder fazer aportes bem pequenos, o que aumenta sua capacidade de diversificar os investimentos. Na EqSeed, o valor mínimo é de 1% do total captado, algo na faixa de R$ 3 mil atualmente. Cada companhia que opera um sistema ou plataforma de captação define seu valor mínimo.

A Me Passa Aí, que produz aulas em vídeo para estudantes, levantou R$ 250 mil com a venda de 12,5% do capital a 54 investidores. “É uma média de R$ 4,6 mil, o que dilui bastante o risco”, diz Luiz Borges, fundador e presidente da empresa. A companhia tem 25 mil usuários, de 900 faculdades diferentes, que pagam assinaturas que variam entre R$ 19,90 por mês a R$ 99,90 ao ano. Estão disponíveis cerca de 2,5 mil aulas. Os recursos obtidos estão sendo empregados para captar usuários, adquirir equipamentos e contratar pessoal.

No ímpeto de obter recursos, muitos empreendedores acabam cedendo participações grandes demais quando suas empresas ainda são muito pequenas, afirma Begnoche. Mais tarde, ficam sem margem de negociação. À medida que a companhia cresce, eles não têm muito mais o que oferecer para conseguir novos aportes.

Regulado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o equity crowdfunding é muito diferente do crowdfunding comum, em que as pessoas doam dinheiro para criação de produtos ou oferta de serviços e, como recompensa, os recebem de graça ou antes dos outros consumidores.

No equity crowdfunding, a startup tem um prazo determinado para atingir o volume de recursos definido na oferta. Se não alcançá-lo, não recebe um tostão. É possível aumentar o alvo, mas isso requer elevar a participação que está sendo vendida. Também há limites quanto ao volume de recursos aplicado pelo investidor, de acordo com seu patrimônio líquido, entre outros critérios.

O papel de empresas como a EqSeed é selecionar os candidatos, acompanhar o cálculo do valor da startup e fazer o processo de diligência prévia. Depois disso, é preciso colocar a campanha na internet. Além da EqSeed, só existem três empresas do tipo no país – Broota, EuSócio e StartMeUp.

Atualmente, duas campanhas estão abertas na EqSeed. A primeira é da Invoop, um mercado on-line de compra e venda de empresas que pretende obter R$ 250 mil, com a venda de 15%. A outra é a Prosumir, que produz equipamentos para transformar o desperdício térmico de processos industriais em energia elétrica. A meta é vender 12,5% por R$ 300 mil.

Para 2017, a meta da EqSeed é fazer até 12 captações. A empresa, diz Kelly, vai trabalhar com investimentos entre R$ 250 mil e R$ 1,5 milhão para empresas na primeira ou segunda rodadas de aporte e que estejam dispostas a vender de 10% a 20% de participação.

 

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Greg Kelly da EqSeed é entrevista pelo Jornal da Globo sobre nova regulamentação da CVM para equity crowdfunding

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