Artigo originalmente publicado na Forbes.

No final do mês passado, o Bradesco anunciou a compra da fintech DinDin, fundada em 2016 por Stéphanie Fleury. A aquisição foi feita pela nova carteira digital do banco, o Bitz, como parte de um case estratégico da instituição para modernizar a tecnologia e os serviços oferecidos aos clientes. “Queremos conquistar uma fatia entre 20% e 25% do mercado de carteiras digitais no prazo de três anos”, afirmou o presidente-executivo do Bitz, Curt Zimmermann, em comunicado divulgado na época da operação.

A formalização do negócio ainda depende da aprovação do Banco Central e de outras entidades reguladoras. Por enquanto, a empreendedora de 36 anos segue como CEO da DinDin, além de ter acumulado a função de head da área comercial do Bitz. O valor da transação não foi revelado.

Stéphanie é um dos poucos nomes do ecossistema de fintechs não apenas no Brasil, mas no mundo. Um estudo da Bain & Company realizado em parceria com o Linkedln em 2019 apontou que a executiva faz parte dos 3% das mulheres que comandam organizações no país. “Fico extremamente honrada por ter a oportunidade de ocupar uma posição tão importante em uma empresa do tamanho e importância do Grupo Bradesco. Precisamos fazer a nossa parte e permitir que mais mulheres consigam espaços de liderança em prol de um mercado mais diverso e mais bem-sucedido”, diz ela.

A ideia de criar a carteira digital DinDin surgiu em 2015, em Nova York. Quando Stéphanie foi rachar a corrida do táxi com uma amiga, ficou fascinada pelo Venmo, plataforma norte-americana de pagamento online com ares de rede social. Apaixonadas pela praticidade, a empresária e a então amiga e depois sócia, Juliana Hadad, mesmo sem entenderem muito sobre finanças e tecnologia, decidiram criar um aplicativo semelhante. A falta de conhecimento, no entanto, pode ter sido uma vantagem pois, segundo ela, “talvez eu tivesse desistido se soubesse de todos os percalços que iria enfrentar.”

Enquanto desenvolvia o projeto, Stéphanie estudava. Logo que colocou o aplicativo no ar, percebeu que era preciso contratar um cofundador que assumisse como CTO. Assim, Stéphanie e Juliana admitiram Renato Avila como sócio junto com Brunna Beccaro, uma amiga do mercado financeiro entusiasta da ideia desde o primeiro dia.

Como o “projeto de sua vida”, como a empreendedora classifica, Stéphanie quis trazer o modelo do Venmo para o Brasil. A ideia era desenvolver um aplicativo que pudesse fazer transações para os contatos cadastrados no próprio celular, sem a burocracia dos grandes bancos. No entanto, a CEO percebeu que a forma como o modelo era utilizado nos Estados Unidos não ia funcionar para o público brasileiro. Assim, além da conta digital, Stéphanie mudou a cara do negócio, incluindo desde conteúdo exclusivo em blog até cartão pré-pago.

No entanto, no Brasil, passar pela “curva da morte” das startups, ou seja, impedir que um negócio vá a falência, é um grande desafio. Segundo um estudo do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, ao menos 25% das startups acabam em um tempo menor ou igual a um ano. Driblar esse cenário exige, além de inovação e conhecimento do público-alvo, também de uma peça-chave: dinheiro.

Após dois anos construindo sua marca, Stéphanie realizou, em 2018, a primeira rodada de investimentos. Por meio de outra fintech brasileira, a EqSeed, a startup levantou capital de 46 pessoas em apenas 12 dias, captando R$ 600 mil. Stéphanie foi ganhando notoriedade nacional ao ser premiada e representar o Brasil em uma competição da empresa de meios de pagamento Visa para mulheres empreendedoras. Assim, chamou a atenção de grandes bancos e negócios no país.

Desafios estruturais

Segundo o Bradesco, Stéphanie é a primeira mulher a vender uma startup para o banco. Mas quem acompanha sua conquista hoje não sabe o percalços que teve que passar, em especial por ser mulher. Tendo que provar constantemente que merecia o lugar que agora ocupa, a empreendedora lembra que tudo o que mais queria era “ter liberdade, trabalhar e conquistar independência”.

O mercado de fintechs e de investimentos ainda é muito masculino no Brasil e a desconfiança em relação ao seu negócio era, principalmente, causada por seu gênero. Além de driblar o desafio financeiro, Stéphanie conta que, aos 19 anos, quando viveu por dois anos na Jamaica, onde trabalhou como consultora no ramo da telefonia – carreira que estava trilhando –, deparou-se fortemente com o machismo que, mesclado à pouca idade que tinha na época, tornou sua atuação um grande desafio. “Havia uma grande dificuldade em aceitar uma mulher jovem em um cargo alto”, explica. “Mas foi um momento importante na minha carreira, não tem como negar.”

Em meio à necessidade de provar seu valor, Stéphanie ainda trabalhou por seis meses no Vale do Silício até que se viu à beira de um breakdown e sentiu que precisava voltar ao Brasil para um período sabático.

Quando retornou ao mercado, no entanto, Stéphanie percebeu que preferia se aprofundar no setor de eventos do que trabalhar com telecomunicações. “Mas, na época, as pessoas contratavam por experiências na área e não skills”, conta. A empresária, então, decidiu criar sua própria agência de eventos, a +55, uma referência ao código de telefonia brasileiro.

Com o crescimento da iniciativa e novos contratos com grandes empresas, Stéphanie viu que podia gerar renda a partir de seu hobby. “Sempre organizei as viagens dos meus amigos, as idas para shows em outras cidades. Isso virou uma piada, me chamavam de Teti Tour. Então criei uma agência de turismo só para atender às pessoas próximas.” A ideia da DinDin veio na sequência.

Apesar do sucesso, a empresária ainda sente na pele a necessidade de comprovar seu valor e saber se posicionar não só como empresária, mas como mulher. Tal peso extra ainda atrapalha um pouco o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. “Foi preciso muita terapia para entender que as duas são complementares”, conta.

O espaço feminino no mundo empreendedor já apresenta sinais de uma provável mudança. Em 2019, as mulheres representaram 15,7% dos 12 mil empreendimentos mapeados pela Associação Brasileira de Startups (ABStartups). No entanto, segundo um relatório divulgado pela consultoria Deloitte em outubro, as fintechs fundadas por mulheres levantaram, em média, 50% menos capital nos últimos cinco anos do que aquelas criadas por homens.

Entre o preconceito e os desafios para ascender nos negócios, veja, na galeria a seguir, cinco dicas dadas por Stéphanie para mulheres que atuam em mercados ainda dominados por homens:

1. Aceite e depois aprenda

Uma vez eu li uma frase do Richard Branson, fundador do Grupo Virgin, que nunca esqueci: “Se alguém lhe oferecer uma oportunidade incrível, mas que você não tem certeza que consegue fazer, diga sim – e depois aprenda como fazer”. Guiei a minha trajetória empreendedora baseada nessa máxima. E funcionou. No mundo de hoje, as informações estão aí. Com muito estudo, esforço, disciplina e dedicação, a gente consegue estar pronta! As mulheres em geral tendem a achar que nunca estão preparadas para o desafio que lhes é apresentado. A grande verdade é que, na maioria das vezes, ninguém está – nem os homens”

2. Aponte o manterrupting sem medo

Foram incontáveis as vezes que um homem interrompeu a minha fala em uma reunião. A que mais me marcou foi em um encontro de fundraising com um venture capital, que já é uma situação na qual o lado de quem está tentando levantar investimentos é mais vulnerável. O interlocutor simplesmente não me deixou apresentar meu pitch – foram tantas interrupções! Depois de uma sequência delas, eu fechei o meu computador e disse: “Se você me deixar terminar a apresentação, consigo responder todas as suas perguntas”. Todos que estavam ali presente notaram o quão inconveniente ele estava sendo. Fiz o que tinha que ser feito: terminei a reunião, mas, já no elevador, decidi que com aquele grupo não trabalharia. Nós também podemos escolher com quem queremos (ou não) trabalhar.

3. Aliados são importantes na trajetória

Quando achei que a presença de um homem era melhor para o business em determinada reunião, convidei um amigo para participar, atuando como “consultor” caso fosse questionado sobre sua participação. Não me arrependo nenhuma vez de ter feito isso – foi a maneira que encontrei para “hackear” o sistema. Em algumas situações, ficava claro o meu maior preparo e domínio do assunto e o amigo ficava ali apenas como suporte. Em outras, onde o preconceito reinava, eu ganhava espaço para ouvir mais e ler melhor todos os sinais da reunião. O importante é que tive com quem contar para esse apoio.

4. Aprenda a lidar com o assédio – isso, infelizmente, é necessário

Assédio, disfarçado de cantada sutil, sempre vai existir. Nós não podemos deixar isso nos abalar, por mais difícil que seja. Lembro que, no final de uma reunião importante, um parceiro de negócios me pediu para continuar na sala e, quando todos foram embora, ele fechou a porta e disparou: “Você se vestiu toda bonita assim hoje só pra mim?”. Eu imediatamente fechei a cara e disse que não. Era a minha primeira reunião do dia e eu tinha um evento no qual faria uma palestra. Abri a porta e fui embora. Vestir-se bem é bom e faz bem. Autoestima leva à autoconfiança, que leva a bons resultados. Eu sigo me preparando bem, seja no pitch, no look ou na resposta para esse tipo de situação.

5. Esteja com o seu track record na ponta da língua

Por sermos mulheres, ainda mais se, como eu, você for jovem, as nossas credenciais sempre precisam ser maiores e melhores do que as do resto da equipe. Costumo dizer que na hierarquia do business, primeiro estão os homens mais velhos, depois os homens mais novos. Aí as mulheres mais velhas, já com carreira reconhecida no mercado e, por fim, jovens mulheres. Foram diversas as vezes que tive que declamar o meu currículo para ganhar atenção de investidores. A vontade agora, depois de tantas conquistas, é perguntar para esse pessoal: “E agora, já está bom o suficiente?”.